Exame está sem seu responsável direto e ‘operação de guerra’ necessária para realização segue indefinida
*com Ana Luiza Basilio.
Após a RR Donnelley Editora – gráfica responsável pela impressão do Enem – anunciar nesta segunda-feira 1 o fim das operações no Brasil, surgiu entre especialistas a dúvida se a prova ficará pronta a tempo. O exame está marcado para os dias 3 e 10 de novembro.
Nas gestões anteriores, o material para impressão foi enviado para a gráfica em maio. Ex-funcionários do Inep disseram a CartaCapital que imprimir seis milhões de provas é algo que demanda um tempo e logística, não havendo no Brasil outro estabelecimento que dê conta de algo tão complexo em tão pouco tempo. “Alguém vai ganhar muito dinheiro com essa operação de urgência que será necessária”, afirma um ex-dirigente.
A assessoria do Instituto diz que o cronograma do exame está mantido e
que as provas serão aplicadas como previsto no edital, mas não detalha
qual será o novo plano.
A informação de que a gráfica estava passando por dificuldades
era de conhecimento do Instituto. Em 11 de março, o Inep consultou a
Casa da Moeda para ajudar na impressão das provas. Dirigentes da empresa
estatal foram até Brasília para um reunião fechada. Um pessoa ouvida
pela reportagem afirma que a operação seria inviável para a Casa da
Moeda.
A gráfica que anunciou falência estava à frente do Enem desde
2009. O processo envolvia não só a impressão das provas, mas um esquema
de segurança do local onde o exame era impresso e dos envolvidos – todos
os funcionários passavam por revistas e eram filmados constantemente.
Um especialista da área explica que, mesmo o Inep encontrando uma
nova gráfica que possua a capacidade de imprimir seis milhões de provas e
tenha as medidas de segurança exigidas, vai demorar um tempo para o
contrato passar pelas questões burocráticas. “É muito difícil isso
acontecer até maio”, diz.
Crise na Educação
O episódio é mais um dos negativos dentro do Inep e confirma a amplitude da crise no MEC. O Instituto perdeu o seu presidente, Marcus Vinicius Rodrigues,
exonerado pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez, após a polêmica
envolvendo o fim da avaliação da educação infantil – até o momento não
há um nome para presidir o Instituto. Também perdeu o coordenador do
exame, Paulo César Teixeira, que pediu demissão no dia seguinte.
Em entrevista ao jornal O Globo, Rodrigues afirmou que
sua demissão foi causada por ele não aceitar indicações do ministro para
ocupar diretorias do Inep. “O ministro me fez várias indicações de
profissionais que tinham uma postura ideológica não adequadas para a gestão. Eu entendi que isso não seria apropriado para a Educação do Brasil”, disse.
O Enem está sem um responsável pela operação dentro do Instituto. O
ex-dirigente ouvido pela reportagem explica que a operação do Exame é
uma “logística de guerra”, pois envolve os Correios, o Exército e tem a
participação de milhares de pessoas. “Sem um comando forte, há grandes
chances da operação dar erro”, disse.
Para o coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação,
Daniel Cara, a falência da gráfica se soma à “má vontade do governo
Bolsonaro com o exame”, que coloca em risco o ingresso dos estudantes ao
Ensino Superior – o ano letivo nas universidades tem início em
fevereiro de 2020.
“Graças aos servidores do Inep, exclusivamente, o exame vinha se
aprimorando. As gestões, quando muito, não atrapalhavam. O problema é
que os servidores estão sendo amordaçados e Bolsonaro quer esvaziar o
Enem. Aí a falência da gráfica pode virar uma desculpa para desmontá-lo
definitivamente”, avalia.
Ainda no âmbito do Inep, também causou desconforto à
comunidade educacional a criação de uma comissão, via MEC, para avaliar
as questões do Exame. A ação foi justificada como uma forma de verificar
se as perguntas da prova são pertinentes com a realidade social, de
modo a assegurar um perfil consensual do exame. Educadores entendem a
iniciativa como censura.
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